As vezes a lucidez é insuportável.
Há umas semanas alguém me disse que eu era um pequeno alien e que ser diferente - realmente ser diferente e não querer ser - num mundo de padrões é algo que numa certa fase só significa uma coisa: conflito.
Tenho dois "eus" e um passa a vida a ralhar com o outro. Aquele que é realmente diferente passa a vida a ser ostracizado pelo Outro que quer ser igual para se enquadrar.
Sempre joguei da boca para fora que era "louca". Mas com os anos percebi que não era só uma força de expressão. Evocava a verdade e não sabia.
Chamei a vida inteira alguns namorados de "bipolares" - esse palavrão que serve para explicar tudo aquilo que não entendemos ou aceitamos nos outros.
Chamei a vida inteira muita gente de incompetente - esse palavrão que serve para explicar tudo aquilo que temos a pretensão de julgar que faríamos bem melhor.
Chamei a vida inteira muitas mulheres de fracas - esse palavrão que serve para explicar tudo aquilo que temos a ignorância de achar que nunca nos vai acontecer.
A verdade é sempre bem mais criativa do que o terror. Mas não é tudo escuro. Depende da perspectiva com que se analisa - tudo depende da perspectiva. E se não houver então não é, não existe. Mas dizia eu, hoje disseram-me:
"Mas tu és um grão de areia. Não vales nada. Nós não valemos nada. Somos tão tão tão pequeninos que nada vai mudar. Tu não marcarás nada nem ninguém. Nós achamos que somos sólidos ou liquidos... Mas somos gasosos. Tão frágeis que desaparecemos no ar. E isso é bom! Ninguém se vai importar com o que fazes ou deixas de fazer! Liberta-te! Esquece! Caga para ti mesma! Deixa de ser auto-centrada e achar que o mundo depende de ti. Ninguém quer saber de ti! Está tudo nas tintas para isso. Escolhe o gelado que mais gostas."
E eu fiquei melhor.
A lucidez é como o xarope. Sabe mal. Faz bem. E não se pode tomar em excesso porque intoxica.
TmAV